NOSSOS DICIONÁRIOS ESTÃO DESATUALIZADOS?
26/09/2006

 Cidadania, honestidade, altruísmo, seriedade, sinceridade e competência são palavras que, dentre muitas outras, os dicionários da língua portuguesa apresentam como atributos que engrandecem a vida de qualquer ser humano e o seu relacionamento com a sociedade.

 Lamentavelmente, essas não são as características que uma pessoa deva apresentar se deseja se credenciar como interlocutor de muitos políticos e de certos administradores públicos, tanto governamental como não governamental, com atuação em qualquer esfera de mando, seja municipal, estadual ou federal. 

 Quem tenta usar essas credenciais, por princípio ou imprudência, é visto com alguém não qualificado, que não é possuidor das moedas de troca vigentes. Corre-se o risco, quase certo, de ser ignorado, de ter as proposições sistematicamente bloqueadas – por melhor e mais bem intencionadas que sejam –, de ser tratado como um intruso, como um competidor ou, em última instância, como um chato.

 Não adianta apresentar-se como parceiro leal e conseqüente, que demonstre interesse em apoiar a ação do ente público demandado e em contribuir para que este cumpra sua missão institucional mais efetiva e eficazmente; não interessa que aja com altruísmo e trabalhe voluntariamente em busca de resultados positivos para uma comunidade, especialmente se esse coletivo for desprovido de expressão política e econômica. A atenção, o diálogo e o apoio fluirão bem mais rápidos e eloqüentes se o “dono do poder” perceber que o interlocutor é conivente com o uso de atitudes menos recomendáveis, como corrupção, nepotismo, clientelismo e fisiologismo, para citar alguns. Aí as demandas passam a compor o jogo do ”toma lá dá cá” e, certamente, receberão as maiores atenções. Estas constatações são frutos de experiência prática.

 Atentos aos insistentes apelos dos moradores de uma pequena e esquecida comunidade de nosso estado, eu e um grupo de amigos com os quais comungo os mesmos ideais sociais, decidimos orientar e coordenar o processo de construção de uma agenda de desenvolvimento para a referida localidade. A etapa de planejamento foi um grande sucesso, realizada com muito entusiasmo e com a participação voluntária de pessoas de todos os segmentos da sociedade local.

 Até então, não houve ingerência de políticos, embora estes emitissem freqüentes sinais, alertando-nos de que estavam atentos ao desenrolar dos acontecimentos, não como demonstração de interesse em trabalhar para atender às prioridades da comunidade, mas como uma estratégia de defesa frente a uma situação nova que passou a ser, na visão deles, encarada e temida como um obstáculo às suas pretensões político eleitoreiras. Até aí, tudo bem.

 As dificuldades surgiram pra valer foi na etapa de impulsão das propostas consideradas prioritárias pela comunidade. Buscamos o apoio de órgãos públicos, governamentais e não governamentais, para concretização das prioridades da localidade e, para nosso desalento, as portas foram sistematicamente fechadas, numa clara demonstração de que não dispúnhamos das credenciais vigentes e das moedas de troca aceitas nos gabinetes do poder, mesmo tratando-se de trabalho voluntário e de ação complementar e cooperativa com os entes públicos.

 Nada disso, entretanto, nos desanima, pelo contrário, torna mais sólida a certeza de que estamos no caminho certo, aumenta a convicção em nossas crenças e nos faz acreditar que, passo a passo, mudaremos essa realidade e construiremos um futuro diferente para as próximas gerações.



Autor: FRANCISCO ARARIPE COSTA
Mestre em Computação, pela UFPb

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