COMO PODE O TURISMO CONTRIBUIR PARA O DESENVOLVIMENTO LOCAL
26/09/2006
O turismo ainda significa, para muitas pessoas, um conjunto de atividades lúdicas, voltadas unicamente para o lazer de quem o pratica e dissociado do contexto econômico, social e cultural dos públicos envolvidos.
É importante salientar que, ainda hoje, alguns governos, como o do Estado do Ceará, ainda privilegiem a absorção de investimentos voltados para criação de condições para fornecer lazer e atividades lúdicas para os visitantes, sem ter uma dimensão do que significa a atividade turística para a dinâmica social, cultural e econômica da comunidade residente.
Esses investimentos (resorts, condomínios habitacionais de luxo, campos de golfe, dentre outros) geralmente são localizados fora da capital do Estado, em locais considerados como paraísos ecológicos, habitados por populações pobres e normalmente envolvidas com atividades econômicas artesanais de subsistência.
Apesar dos projetos preverem grande aporte de recursos financeiros, não se visualiza um processo de desenvolvimento que deveria ser conseqüência. Convém salientar que faz-se desenvolvimento em qualquer situação quando o ente envolvido, seja uma pessoa, uma comunidade, um processo, passam de um plano ou estágio em que se encontra a um plano ou estágio superior ou mais elevado.
É importante, então, entender desenvolvimento como um processo de legitimação de uma sociedade, a partir da superação de seus problemas sociais, fugindo da tendência de se reduzir o seu conceito simplesmente a desenvolvimento econômico, como se este não significasse ou envolvesse a participação da comunidade que, de todo, é quem movimenta e dinamiza todo o processo econômico.
Na verdade, desenvolvimento deve tratar de um processo, no sentido de que é um encaminhamento de ações planejadas e encadeadas, com começo, meio e fim, com objetivos e metas a alcançar, e recursos financeiros e humanos a administrar. Deve envolver a superação de problemas e limitações pessoais e grupais, para alcance desses objetivos, especialmente se esses problemas e obstáculos envolvem toda a diversidade e complexidade de comportamentos atitudes próprias de uma sociedade, que é, de todo, a base sobre a qual todas as ações devem ser planejadas e executadas.
Assim, é necessário que não só se proceda ao desenvolvimento espacial, aí incluídos o desenvolvimento físico e econômico do local, mas o desenvolvimento da comunidade, nos seus aspectos sociais e culturais. O desenvolvimento cultural pressupõe a redescoberta das raízes da comunidade, de sua história, do cultivo, manutenção e aprimoramento de sua identidade, da redescoberta de suas manifestações culturais, da solidificação, enfim, da sociedade com o um ente com condições de definir e enfrentar o seu próprio futuro.
Dessa forma o turismo se enquadra não só como fator de desenvolvimento da comunidade, mas como um fator motivador desse desenvolvimento. Não se pode dizer que o turismo desenvolve uma comunidade. Muitas vezes a o poder aquisitivo dos turistas e visitantes, o seu nível cultural e sua condição social, são fatores de desenvolvimento e valorização do espaço e da comunidade. Outras vezes, no entanto, esses mesmos fatores são causa da degradação, não só arquitetônica, mas ambiental, cultural e social. Muitas vezes valores sociais de uma comunidade são contestados e destruídos pelo não respeito aos princípios básicos de convivência social por parte dos visitantes e pelo despreparo da comunidade residente para recebê-los.
O turismo na verdade é o resultado das estratégias e ações executadas nos diversos setores (econômico, cultural, social, etc) que compõem uma sociedade. Quando tudo funciona dentro do previsto e tem resultados satisfatórios, cria-se condições para que a atividade turística se desenvolva e através dela, num círculo virtuoso, todos os setores da sociedade e sejam criadas condições para um desenvolvimento contínuo, crescente e sustentado dessa comunidade.
Para que se pense em desenvolvimento para a comunidade é necessário que se estabeleça um programa mínimo de participação da sociedade nesse processo de desenvolvimento. Esse envolvimento poder-se-ia dar através de um planejamento participativo onde fosse possível estabelecer o futuro desejado e as principais estratégias e ações que poderiam ser desenvolvidas, tendo essa comunidade como protagonista.
Necessário se faz, então, que seja determinado quais atores participariam do processo, tanto na área pública como privada; os diversos grupos de interesse, normalmente antagônicos e de características diversas e conflitantes, mas que poder-se-iam unir em busca de um objetivo único; os financiadores dos projetos e da implementação dessas estratégias e ações; e os implementadores intrinsecamente ligados à comunidade.
É válido ressaltar que o conjunto daqueles que vão ganhar e perder com a atividade turística está na dependência direta das condições manifestadas pela comunidade. Sua condição de autonomia e autodeterminação, determinarão o nível de protagonismo necessário e que lhe será requerido; os graus de diversidade e complexidade dos componentes da sociedade e de seus grupos constituídos, nos níveis econômico, social e cultural.
O momento político e econômico do país determinará o tipo, o nível e o montante e qualidade dos investimentos a serem realizados, bem como as políticas governamentais nos níveis ambiental, educacional, cultural e social e o compromisso do governo em cumpri-las em parceria com a sociedade.
Dessa forma, é necessário ter a consciência de que o turismo deve ser visto, isto sim, como uma atividade essencialmente humana, cujos resultados devem ser direcionados prioritariamente para o desenvolvimento da comunidade e, por via de conseqüência, para o bem estar das pessoas e seu crescimento social e cultural.
Autor: NILO ALVES JÚNIOR Especialista em Marketing, pela UNIFOR, Mestre em Gestão de Negócios Turísticos, pela UECE e Doutorando em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional, pela Universidade de Barcelona (Espanha) |
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