RESPONSABILIDADE SOCIAL É MAIS QUE FILANTROPIA
26/09/2006

Já está por demais entendido que toda organização é criada para atender a necessidades e expectativas do seu ambiente de atuação. Em conseqüência, a sobrevivência e o crescimento de uma organização estão na dependência de sua capacidade em atender, com competência, a essas necessidades e expectativas. Isso é verdade, inclusive, para as empresas privadas, na qualidade de organizações específicas (com finalidade de lucro). A competência comentada é avaliada pelo ambiente-sociedade, sob os critérios de eficácia (que diz respeito à suficiência e à oportunidade dos bens e serviços ofertados), de eficiência (economia de recursos, melhor qualidade de bens e serviços produzidos e menores custos) e de efetividade (aderência dos bens e serviços produzidos àquelas necessidades e expectativas do ambiente). Infelizmente, além de bens e serviços, as organizações também produzem resíduos, sejam mais tangíveis (poluição, por exemplo) ou não (desatenção com os clientes, comportamento anti-ético etc). Por isso, a atuação socialmente responsável das empresas entra no julgamento do seu desempenho que, como se disse, é feito pelo ambiente (sociedade). Apesar do tempo decorrido desde o surgimento das ações sociais adotadas pelas empresas, só mais recentemente o tema despertou maior interesse acadêmico, passando a ser objeto de estudos e pesquisas. O fato de que só recentemente o assunto vem sendo estudado com mais interesse deve ser a principal razão pela qual a denominação da Responsabilidade Social Corporativa varie muito, não se tendo ainda consagrado uma expressão única. Daí, além da denominação citada, vêem-se várias outras, tais como Responsabilidade Social das Empresas, Responsabilidade Social Organizacional, Responsabilidade Social nos Negócios, Cidadania Corporativa e Cidadania Empresarial. Apesar de ser muito mais que um simples modismo, a Responsabilidade Social Corporativa vem sendo tratada como se não fosse mais que moda. Sentindo-se pressionadas pelo julgamento da sociedade, algumas empresas tentam compensar, com ações pontuais, a produção dos seus resíduos. Mais que isso: equivocadamente, a maioria dessas empresas trata essas ações pontuais de Filantropia como se constituíssem uma estratégia de Responsabilidade Social. Para estabelecer uma distinção entre ambas, começa-se por afirmar que aquela está contida nesta, o que já repete a afirmação contida no título acima.  Na Filantropia Empresarial, identifica-se uma atividade assistencial, imediatista e limitada ao favorecimento de parcela da comunidade. Na Responsabilidade Social Corporativa, pode-se perceber uma atitude abrangente, baseada no convencimento de como devem ser as relações da organização com seus diversos públicos.  A primeira é, geralmente, adotada por decisão individual;, é discricionária, tem por fim a caridade e não necessita de gerenciamento. A segunda está sintonizada com as estratégias de relacionamento da empresa com seu ambiente de atuação, sendo uma decisão estratégica, tem por finalidade o fomento à cidadania e precisa ser gerenciada. A atuação socialmente responsável das organizações pode-se dar em variados níveis, seja no que se refere à abrangência  – no sentido dos públicos beneficiados –  seja no que diz respeito à variedade de ações ou, ainda, no que concerne à intensidade da realização dos programas.  Quanto à abrangência, se a atuação socialmente responsável pudesse ser medida em escala, o simples cumprimento das obrigações legais corresponderia aos valores iniciais, a Filantropia Empresarial estaria no nível intermediário dos valores e a Responsabilidade Social Corporativa nos valores finais da escala. Aí, mais uma vez, se explica o título deste artigo. Observa-se que a humanidade, como um todo, está despertando para as necessidades de preservar o planeta e proporcionar melhores condições de vida a todos os seres. Este despertar também chega às empresas, seja pela convicção pessoal dos seus gestores, seja pela pressão social, seja pelo mimetismo que leva as empresas a imitarem suas congêneres mais bem sucedidas. Já não é suficiente a produção de bens e serviços de qualidade a preços compatíveis. Além disso e do cumprimento das obrigações legais, é necessário respeitar o meio-ambiente, manter relações transparentes com acionistas e financiadores, remunerar e tratar adequadamente os colaboradores, assistir os clientes antes, durante e depois da venda, manter relações de efetiva parceria com os fornecedores, conviver eticamente com os concorrentes e, se ainda houver disposição, adotar ações de Filantropia Empresarial. Assim, a Responsabilidade Social Corporativa se torna uma tendência irreversível e mundial, bem mais vasta e com muito maiores conseqüências que as simples ações assistenciais. Com essa tendência, vai-se tornando crescentemente difícil identificar quando os gestores de empresas socialmente responsáveis chegaram ao convencimento da necessidade de adoção dessa atitude. Chegaram à carreira de gestores já convencidos dessa necessidade, ou foram levados a essa convicção pela análise dos cenários onde tinham que gerir seus negócios? A questão está no julgamento que o ambiente faz da organização como boa destinatária de recursos (humanos, materiais e financeiros, assim como informações e tecnologias), como boa produtora de bens e serviços e como entidade socialmente responsável, no amplo sentido dessa expressão. A Filantropia Empresarial tem seus méritos, mas tem resultados mais limitados, porque não “conversa” com as estratégias das empresas. Além disso, tende a gerar dependência, o que reduz a qualidade da contribuição social das ações adotadas.



Autor: FRANCISCO ROBERTO PINTO
Mestre em Administração de Empresas, pela UFPb, Doutor em Administração pela UFPb (Brasil) e Doutorando em Administração pela Universidade de Coimbra (Portugal)

Outros Artigos...